Scorn

Leonardo Melo
7 min readNov 23, 2022

Seguramente um dos jogos mais bizarros de todos os tempos. De visual incrível, Scorn causou um certo rebuliço na comunidade game, justamente por não trazer explicações fáceis sobre sua história. Mas do que se trata, afinal? (Óbvio, tem SPOILERS).

Scorn não tem cinemáticas ou legendas, de maneira que sua história fica totalmente implícita nos detalhes. Com gameplay médio de 7 a 8 horas (correndo dá pra fazer em 4), você provavelmente vai ficar intrigado para descobrir o que diabos está acontecendo, o que pode gerar grande frustração no final. Esse é um dos motivos pelo qual o game gerou tanta discussão, então vale a pena falar da história e das teorias que surgiram na comunidade.

A História

Você acorda no que parece ser um planeta totalmente inóspito. Provavelmente não é a Terra e você não é humano, mas nunca se sabe. O que fica claro é que o planeta parece estar se deteriorando. Você está em um deserto onde encontra cadáveres estranhos por onde passa e grandes estruturas fatigadas pelo tempo.

Na medida em que avança, você encontra máquinas e instrumentos que se baseiam em uma mistura de mecânica com carne, o que já começa a causar estranheza, para dizer o mínimo. Há vários momentos em que os mais sensíveis poderão ficar enojados ou até pior, mas isso faz parte da originalidade do jogo. O design é simplesmente incrível, por vezes remetendo a Alien, mas sem ser uma referência explícita. Só é realmente o mais próximo que consegui pensar para descrever.

Também, boa parte do jogo está mais próxima de um jogo de puzzle do que de um shooter propriamente dito, apesar do estilo ser bem FPS. No primeiro ato, você resolve alguns puzzles, um dos quais envolve capturar uma criatura para espremê-la e pegar seu braço pra usar numa máquina, só para poder abrir uma porta. Logo em seguida você pega a primeira “arma” do jogo, que na verdade não dispara nenhum projétil, mas lança um “bastão” retrátil para frente. De novo, cabe aqui uma semelhança com a “língua” do Oitavo Passageiro, que vai e volta. A arma também pode ser usada como uma chave, que serve para ativar mais máquinas um pouco mais à frente e, por fim, o personagem desmaia.

Depois você acorda novamente no deserto, despertando de um casulo preso na parede, o que parece remeter um pouco a Matrix. Contudo, a grande maioria da comunidade concorda que este não é o mesmo personagem de antes, o que fica claro um pouco mais adiante, quando você encontra uma criatura bizarra que parece um ser humano deteriorado (muito provavelmente, o primeiro personagem que controlamos, no Ato I), assumindo uma forma de “lagartixa”. Em certo momento, esse ser estranho pula no corpo do novo protagonista, agarrando-se a ele de uma forma bizarra (sim, bizarrice parece ser o trema central do jogo) e iniciando uma espécie de simbiose.

Agora o jogador avança dentro da estrutura gigantesca, que pode ter sido uma espécie de instalação de pesquisa um dia. Não se sabe quanto tempo passou entre um ato e outro, mas você passa pelos mesmos corredores que havia passado no primeiro ato e eles estão tomados por terra e poeira. Você encontra outras armas e também um segundo parasita que usa tanto para guardar munição quanto para recuperar saúde, ambos bastante escassos ao longo do jogo.

Nesse ponto, claro, começam a surgir inimigos — criaturas alienígenas ou humanos deteriorados? — e você avança pela gigantesca instalação, não só abrindo caminho na bala, mas continuando a resolver os puzzles, cada vez mais esquisitos e difíceis. Finalmente, você consegue entrar em um “bondinho” que te leva até a parte final, numa espécie de templo. Esse local finalmente te dá algumas dicas sobre o que está acontecendo, de maneira a deixar mais explícito que o jogo trata, de alguma forma, sobre sexo, fertilidade e reprodução. Digo “mais” explícito por que, em todo o jogo, essas referências estão lá, mas aqui há estátuas gigantescas de casais fazendo sexo, o que fica bem difícil de ignorar.

Nesse ponto, a simbiose com a criatura original está destruindo seu corpo e você precisa se separar dela para sobreviver. Depois de — claro — resolver mais alguns puzzles, esmagar fetos e enfrentar uma criatura biomecânica, você consegue ativar uma máquina que arranca a criatura de seu corpo, mas paga caro, de maneira que suas tripas vão caindo para fora.

Arrastando-se até um altar, você consegue ativar uma espécie de “médico” mecânico, que liga sua mente a uma grande estrutura de neurônios. Mas ao invés de remendar seu corpo, como esperaríamos, o “médico” começa a cortar-lhe incessantemente. Graças à sua conexão com a rede de neurônios, você agora é capaz de transferir sua mente para dois corpos de seres “grávidos” e os usa para desvendar o puzzle final e abrir a última porta.

Usa então um dos corpos “grávidos” para carregar-lhe até o que parece ser seu objetivo o tempo todo: um portal de luz. Mas antes que possa atravessá-lo, a criatura simbiótica retorna, lhe ataca e consegue lhe envolver, impedindo sua travessia. Ela completa a simbiose e vocês ficam entrelaçados para sempre. Ao jogador, fica a sensação de ter ficado sem respostas.

A Teoria “Realística”

Lógico que eu, assim como a grande maioria, fiquei puto com esse final e fui atrás de respostas. Um dos vídeos mais legais que achei sobre o assunto foi do canal Cow Level, que fez esse vídeo bem bacana para desvendar a história, baseado não só no que vemos “in-game”, mas também no que é dito no Livro de Artes Oficial de Scorn.

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Resumindo: aparentemente, os habitantes deste planeta haviam encontrado uma forma de transcender suas mentes para um novo plano, o que instiga ainda mais a busca pelos segredos do Universo. Despertando para a própria mortalidade, eles começam a fazer experimentos de mutação genética e biomecânica para tentar encontrar um corpo perfeito. Daí o porquê de encontrarmos as máquinas e criaturas esquisitas pelo meio do caminho. A primeira criatura que encontramos no jogo, por exemplo, na qual esmagamos seu corpo para capturar seu braço, teria sido criada exatamente para esse propósito único: usar partes de seu corpo em máquinas.

O ápice dessa bioengenharia a gente encontra no final do jogo, que seriam as “Conchas” (Shells). São os corpos “grávidos” que o protagonista consegue transferir sua mente. Com que propósito? Pouco se sabe, mas aparentemente o objetivo dessa raça era atravessar o portal, algo que nunca deu certo. Nosso protagonista, diferentemente de seus predecessores, parece ter um apego maior por seu próprio corpo — talvez tenha encontrado a chave para atravessar o portal — e por isso insiste em carregá-lo consigo durante a travessia.

Se ele conseguiria atingir seu objetivo e desvendar os segredos do Universo, ou o que há depois do portal, ou se a criatura fez bem ou mal em impedir sua travessia, só podemos especular. A menos, é claro, que venha algum tipo de expansão, que diga-se de passagem, seria muito bem-vinda.

A Teoria “Metafórica”

Algumas teorias não são tão “pé da letra”, talvez justamente porque muita gente não teve acesso — ou sequer sabia que existia — o referido livro de artes que descreve os personagens e cenários do jogo. Mas não há que se negar que o tema do jogo — seja encarando de forma realista ou metafórica — passa por questões que remetem ao ciclo de vida e morte. Por onde você passa, você vê criaturas nascendo ou morrendo e, como eu disse antes, as referências a sexo não são poucas.

A primeira arma que você usa, um objeto fálico que vai pra frente e para trás e que encaixa em buracos, te remete a alguma coisa? Não fique envergonhado se você pensou “naquilo”. Eu comentei que é uma referência a Alien. É bem conhecido que o pintor H. R. Giger, criador dos concepts de Alien, era um fanático pelos órgãos sexuais masculinos e femininos e incorporou isso no filme. Pense, novamente, na língua do Alien e na “carinha” do facehuger.

As referências não param por aí. O parasita que você usa para se curar, sempre que o coloca na máquina e recarrega as células de vida, é “penetrado” por um objeto fálico. Vários puzzles tem referências ao sistema reprodutivo humano, sendo que o penúltimo deles parece ser uma clara referência a um espermatozóide fazendo seu caminho através de um labirinto para fecundar um óvulo. Some-se a isso o fato de que, logo que conhecemos nosso segundo protagonista, ele está saindo de um casulo e removendo um cordão umbilical. Literalmente.

Por que estou dizendo tudo isso? Porque uma das teorias mais discutidas é de que o jogo é, justamente, uma metáfora para um aborto. Nosso protagonista está em simbiose com uma criatura — exatamente como mãe e filho — só que essa simbiose não parece correr bem. Na medida em que você avança, novos sangramentos ocorrem e vão piorando cada vez mais.

E você se esforça por todo o caminho para chegar a um portal de luz que se assemelha — talvez mais do que deveria — a uma vagina. Se isso não é referência clara ao nascimento, eu não sei o que é. E aí, o que acontece? O nascimento é impedido, e aparentemente mãe e filho morrem, ficando juntos para sempre. Triste, não?

E você, jogou Scorn? Gostou? Odiou? Qual teoria você acha que está mais correta? Tem mais alguma outra que você ouviu por aí? Deixa aí nos comentários!

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